O TRT do Rio vive sua pior crise
A Justiça do Trabalho do Rio de
Janeiro há muito tempo tornou-se uma dor de cabeça para
os advogados e, principalmente, para seu principal cliente: o trabalhador.
Se o primeiro Tribunal Regional do Trabalho há décadas
já não era modelo para seus pares em outros estados, a
situação começou a agravar-se com o incêndio
de 2002, que prejudicou enormemente seu funcionamento naquele ano.
Porém, passados mais de seis anos daquele infortúnio,
não se pode mais atribuir os problemas da Justiça do Trabalho
do Rio a uma fatalidade. Efetivamente, existe um problema de gestão
do Tribunal, já diagnosticado pela própria Corregedoria
do Tribunal Superior do Trabalho e que o distingue negativamente entre
os demais Regionais.
Temos a terceira pior taxa de congestionamento na execução
entre todos os Regionais do Brasil e, definitivamente, somos o pior
Tribunal entre os quatro maiores (São Paulo, Minas Gerais, Rio
de Janeiro e Rio Grande do Sul). Temos um problema crônico de
funcionamento em nossas Varas do Trabalho, que simplesmente não
conseguem realizar os atos processuais mais comezinhos (publicação
de editais, expedição de notificações, tramitação
de petições etc) em prazo razoável. Temos muitas
Varas que levam de dois a três meses para remeter uma petição
para a conclusão do juiz, o mesmo prazo para publicar um expediente
e mais tempo ainda para realizar um mero cálculo de atualização.
A execução de uma sentença em nosso Regional é
um calvário que pode levar de três a quatro anos, sem nenhum
incidente significativo.
TRT/RJ recusou um sistema de informática
gratuito
Como se não bastasse, o Tribunal
Regional do Trabalho da 1ª Região decidiu substituir seu
sistema de informática. “Ótimo”, diria um
advogado desavisado que aportasse ontem na cidade, “certamente,
esta providência tornará os serviços mais ágeis”.
De fato, a Corregedoria Geral da Justiça do Trabalho havia recomendado
a substituição, ressaltando que o sistema antigo era muito
ruim, além de ter uma manutenção caríssima
pela firma que o implantou. Assim, recomendou que o TRT da 1ª Região
adotasse o mesmo sistema utilizado pelo TST e pelos demais Regionais,
que seria cedido gratuitamente à Primeira Região.
Mas o que fez o TRT da 1ª Região? Recusou o oferecimento
de um sistema gratuito que funcionava a contento em todo o Brasil e
preferiu ele próprio desenvolver um novo sistema. Gastaram-se
quase R$ 8 milhões do orçamento público para desenvolver
um sistema pesado, complexo e de difícil operação.
Por outro lado, a instalação foi realizada “a toque
de caixa”, sem a preparação do ambiente de rede,
adequação dos equipamentos ou treinamento adequado dos
funcionários. O fundamental era dar uma resposta política
às críticas do TST ao sistema de informática do
Rio, desenvolvendo um sistema próprio superior ao adotado pelos
demais Tribunais.
Tribunal trabalha apenas com 30%
de sua produção anterior
O resultado desta crônica de uma
tragédia anunciada está aí à vista de todos:
o TRT do Rio está paralisado por um incêndio virtual, com
suas varas funcionando com uma produção reduzida para
30% do volume anterior, segundo informações passadas por
seus próprios funcionários. Isto mesmo! Estamos reduzidos
a 30% de uma produção que já estava entre as piores
do Brasil!
Mas o mais assustador é que a direção do TRT da
1ª Região não está preocupada com tal quadro.
Assume uma postura de avestruz e afirma vagamente que até o final
do ano estará “tudo normalizado”. Os funcionários
e juízes de 1ª instância afirmam no anonimato justamente
o contrário. Ou seja, que não há nenhuma perspectiva
para a normalização do funcionamento das varas, pois o
sistema permanece instável, tomando um tempo muito maior para
cada operação e, para piorar, é utilizado por funcionários
que não foram adequadamente treinados para operá-lo.
Há muito tempo a prestação jurisdicional não
parece ser uma grande preocupação das administrações
do TRT. Nada é feito para torná-la mais ágil e
eficiente. A Presidência e a Corregedoria do TRT da 1ª Região
não controlam adequadamente a produção de seus
juizes e funcionários, ao contrário de outros Regionais.
Em outros Tribunais, os funcionários possuem controle de ponto
eletrônico e os juizes comparecem às varas diariamente.
Em Minas Gerais, o juiz com sentenças em atraso não tira
férias e existe uma Corregedoria que efetivamente cobra a produtividade
das Varas, fazendo correições habituais e rigorosas.
No Rio, a maior preocupação
são homenagens e inaugurações
No Rio de Janeiro, os cargos de presidente
e corregedor são encarados apenas como um “fecho de ouro”
na carreira de magistrado, sendo que seus ocupantes não se mostram
nem um pouco interessados em adotar medidas antipáticas em relação
a seus pares e mesmo aos funcionários. Os graves problemas são
simplesmente “rolados” para a próxima gestão,
sendo que a maior preocupação são homenagens e
inaugurações que possam aumentar o prestígio da
administração entre os próprios juizes. A 1ª
instância é particularmente ignorada, como se a administração
do Tribunal se concentrasse na resolução dos problemas
dos desembargadores, que efetivamente votam nas eleições
internas e nas promoções de juizes.
Poderíamos permanecer por páginas e páginas discorrendo
sobre as mazelas da 1ª Região, mas, por limitações
de espaço, sugerimos aos interessados que consultem na página
do TST na “internet” o último relatório da
Corregedoria Geral da Justiça do Trabalho sobre o TRT da 1ª
Região. O retrato pintado pelo Corregedor em cores vivas sobre
a Justiça do Trabalho do Rio de Janeiro certamente impressionará
mais do que as críticas aqui lançadas, pois se baseia
não em retórica, mas na frieza dos números e resoluções
administrativas do TST.
O Sindicato dos Advogados, a OAB/RJ e a ACAT foram à Brasília
em setembro encontrar-se com o presidente do TST, ministro Rider de
Brito. Foram solicitar a maior autoridade da Justiça do Trabalho
no Brasil que intervenha nos graves problemas que assolam a 1ª
Região, auxiliando na sua resolução. O presidente
Rider de Brito prometeu às entidades representativas dos advogados
no Estado o envio de uma comissão de juizes especializados em
informática para avaliarem a crise no Rio de Janeiro.
TST prometeu intervir
Infelizmente, tal comissão
ainda não chegou ao Rio de Janeiro e o problema parece se agravar,
com a entrada em operação das novas e complexas tabelas
de objetos criadas pelo Conselho Nacional de Justiça. Agora os
funcionários, além das tramitações usuais
que já eram feitas de forma lentíssima, são obrigados
também a lançar uma classificação de objetos
de todos os pedidos de uma inicial, tornando ainda mais lento e burocrática
a distribuição de um feito.
A administração do TRT convocou os advogados para admitir
que não tem funcionários suficientes para implantar as
tabelas sem prejudicar a distribuição das ações,
pedindo a “colaboração” das entidades. As
entidades representativas da advocacia procuram colaborar com o Tribunal,
mas não podem assumir sua administração.
O que os advogados e jurisdicionados do Rio esperam do Tribunal Superior
do Trabalho é que ele assuma uma posição efetiva
na resolução dos graves problemas que assolam a Justiça
do Trabalho no Estado, forçando sua Administração,
se preciso for, a encarar de frente tais problemas e buscar soluções
urgentes. O que não se pode mais admitir é que o trabalhador
do Rio de Janeiro, que é ponta de lança do desenvolvimento
do país, tenha a pior Justiça do Trabalho do Brasil.
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